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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A verdade!

“O cérebro pode editar
e censurar seletivamente a verdade
para construir uma realidade
mais gentil e doce.”
                                  Cordelia Fine
                                  Psicóloga e escritora.

       Assistindo recentemente, o escritor e radialista espanhol, Eduardo Punset, no seu programa REDES, ele disse o seguinte: 
       “O nosso cérebro está sempre a convencer-se com a opção mais confortável, e que melhor se encaixa na sua própria realidade. Por isso, a memória e o inconsciente encarregam-se de ajustar o que não se encaixa, de mudar o que não gosta, de eliminar o que dói e de exaltar o que lhe agrada.” 
       Ao que se pode acrescentar que o cérebro é um mecanismo, fruto da evolução de milhões de anos. Então, a grande pergunta que fica é a seguinte: 
       
       O que é a verdade?

       É extraordinariamente difícil para qualquer pessoa aproximar-se de algo que se possa definir como verdade, não apenas pelas restrições do cérebro, mas por todos os paradigmas sociais. Portanto, sendo o cérebro o melhor fruto da evolução, devemos levar em conta os condicionamentos do cérebro que nos impedem de ver a verdade.
       No cérebro, a parte lógica e consciente é uma descoberta muito recente. A parte instintiva e emocional origina desde o início evolutivo humano. Logo, é por isso que somos dominados pela parte emocional. O medo, o desejo, a euforia, a ira, a preguiça, e toda uma quantidade de emoções têm maior peso na hora da tomada de decisões.
       Quando alguém nos ofende, nos burla ou zomba, desenvolvemos um sentimento de desprezo e de ódio. E com esse tipo de sentimento é difícil dizermos:
“Odeio aquela pessoa com todas as minhas forças; mas, ainda assim, tenho de reconhecer que tem lá as suas razões, entretanto, é uma pessoa inteligente e que pode ajudar-me bastante.”
       Ninguém diz que, as nossas emoções não nos permitem ver a realidade tal como ela é. O cérebro não pode tomar decisões com base no que não conhece, e ao não ser capaz de conhecer tudo, não lhe resta outro remédio a não ser tomar decisões e classificar o que o rodeia, com base nos conhecimentos que conseguiu adquirir ao longo da vida. Cabe ainda referir que, o cérebro não tem acesso a todo o conhecimento aprendido, apenas acede ao que tem maior impacto emocional, e é mais recente, condicionando muito mais a percepção e as conclusões a que chega.

       O cérebro não procura a verdade, mas a sobrevivência!

      Como seres humanos, temos a limitação de viver com base no que os outros nos contam. O cérebro, de forma inconsciente, assume essa informação, e guarda-a como mais lhe convém. Por exemplo, se você lê uma notícia através da Internet, você não a corrobora, aceita-a simplesmente, como verdade, se esta se ajustar. Você não lê informações na internet que contrariem as suas idéias, você lê para confirmar que o que pensa está certo. 
       Tudo o que é contrário às suas idéias você diz: “Que bobagem!”, e não perde tempo a verificar até que ponto é verdade. Mudar nosso sistema de crenças não é muito positivo para o cérebro, já que é nesse sistema de crenças que se baseiam todas as decisões.

       O cérebro procura conforto, não gosta de perder tempo nem energia

       Quando você assimila um acontecimento externo, não o faz com base em uma investigação aprofundada, pesando os prós e contras de algo; o seu cérebro, simplesmente, toma a decisão que melhor se ajusta aos seus (pre)conceitos.
       Ninguém diz: “Nos próximos dois anos vou-me dedicar a investigar todas as religiões do mundo e com base nisso vou decidir a minha fé.”
       Muito menos diz: “Para eleger este presidente, vou ler a trajetória de todos os candidatos apresentados, vou olhar para a obra feita por cada um, e ver que benefícios trazem a longo prazo para o país, e até que ponto isso afeta os meus interesses pessoais.”
       
       O seu cérebro só quer que você esteja bem.

       O cérebro engana-nos sobre as coisas más que faz, os erros que comete, e procura outros responsáveis. O cérebro procura defender seus interesses pessoais. Se alguém atacar seus interesses pessoais, procura tirá-lo do caminho. Por exemplo, um agricultor odiaria e veria com maus olhos alguém que promovesse as importações de um país, sem se importar se isso representaria, para os outros, melhores preços, maior variedade ou qualidade.
Um agricultor nunca diria: 
“Uau, estas importações estão trazendo ótimos produtos, e a um melhor preço. Fico muito feliz por tudo o que vai trazer a tantas pessoas, não me importando que isso me arruíne e não tenha como dar de comer à minha família.”
       Procuramos sobreviver, e não tanto tentar encontrar a verdade absoluta.
Então, dá para entender o quão difícil é chegarmos perto de uma definição do que é a verdade. Nossos condicionamentos mentais e os paradigmas culturais são uma espessa capa de ilusão que não conseguimos modificar ou anular facilmente. 
       A humanidade evoluiu como espécie, sendo absurdo que alguém possa pensar que encontrou a verdade absoluta e que não precisa de saber mais nada. O que sabemos é fruto das experiências particulares de milhões de pessoas ao longo de milhares de anos. Dentro de milhares de anos também nós teremos feito a nossa parte, para a construção de um mundo melhor para os nossos filhos.
       Talvez a verdade que necessitamos saber agora, é a que nos faz felizes a nível individual. Em vez de procurar a verdade, é melhor procurar uma melhor explicação para as coisas, tente procurar informações coerentes que ajudem a explicar melhor as coisas.
       Espero que este texto tenha lhe inspirado, ou então instigado a pensar sobre o assunto.

Muito obrigado pela sua atenção.
                                                                             Gilberto Schunck.